O
debate sobre a existência, ou não, da esquerda e da direita ganha o tempo.
Alguns dizem que tal debate está superado, outros que é atual. Os primeiros
afirmam que isso não importa mais, mas os segundos dizem que isso é condição
para o entendimento do jogo político.
Eu
continuo dizendo que existem os dois lados.
Gostaria
de contribuir com esse debate apresentando-lhes um texto que guardo com muito
carinho.
É da
lavra do mestre Suassuna, um cristão de primeira, que faz definições
maravilhosas sobre o que é ser de esquerda e o que é ser de direita.
Esquerda e direita
Artigo de ARIANO SUASSUNA, escritor
paraibano, autor de "O Auto da Compadecida"
Publicado
na Folha de São Paulo de 14 de setembro de 1999
Não
concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e
direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.
Talvez
eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do
homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre
eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoievski e aquela grande mulher
que foi santa Teresa de Ávila.
Como
consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para
o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a
injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e
repensar a história em termos de esquerda e direita.
Temos
também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita,
enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era
da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso
que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande "assembleia
geral" da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.
De
esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade
cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos
por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são
Lucas, nos "Atos dos Apóstolos", com o de Euclydes da Cunha em
"Os Sertões". Escreve o primeiro: "Ninguém considerava
exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia
entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam
os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se,
então, a cada um, segundo a sua necessidade". Afirma o segundo, sobre o
pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: "A propriedade
tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos:
apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta
da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas,
cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a
companhia" (isto é, para a comunidade).
Concluo
recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a
distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania
nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem,
na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a
coloca na eficácia e no lucro, é de direita.